Imagem de um adulto e três crianças. Nela, o adulto está orientando as crianças quanto ao uso de telas na infância.

Uso de telas na infância: como criar uma relação saudável com a tecnologia

É natural que a tecnologia faça parte do nosso dia a dia. Vivemos cercados por telas que nos informam, divertem e, muitas vezes, são vistas até como aliadas na rotina com os filhos. Porém, hoje, os pequenos têm acesso fácil a uma infinidade de dispositivos, canais, plataformas de streaming e redes sociais, que trazem diversos tipos de conteúdo.

Logo, como garantir que o uso de telas na infância seja saudável e equilibrado? Existe um limite seguro? O uso precoce ou exagerado pode trazer riscos? 

Neste conteúdo, reunimos orientações práticas para ajudar mães, pais e cuidadores a lidar com essas dúvidas e a estabelecer uma relação positiva entre crianças e tecnologia.

O que dizem os especialistas sobre o uso de telas na infância?

Em casa, na escola, no restaurante ou no shopping, é comum vermos crianças entretidas com celulares e tablets, assistindo a vídeos, jogando ou navegando nas redes sociais. Dados de pesquisas mostram que o uso entre crianças e adolescentes é alto, mas esse hábito pode (e deve) ser prevenido desde os primeiros anos de vida.

Tempo de tela por idade

Diante do uso constante de telas por crianças, diversas entidades de saúde ao redor do mundo já estabeleceram diretrizes e recomendações sobre o uso de celulares, tablets e outros dispositivos na infância. A seguir, veja o que dizem as principais instituições sobre o tempo de tela por idade.

Organização Mundial da Saúde (OMS) 

No contexto do uso de telas na infância, as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) abrangem ainda atividade física, comportamento sedentário e sono para crianças com menos de 5 anos. No documento, a entidade orienta:

  • Até 2 anos: zero telas e evitar que os bebês fiquem sentados por mais de 1h por vez, em carrinhos de bebê, cadeiras, etc.
  • De 2 a 4 anos: tempo sedentário em telas não deve ser superior a 1h; quanto menos, melhor.

Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)

A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda limites de tempo de tela para cada faixa etária, ajudando a proteger o desenvolvimento saudável das crianças e adolescentes. Veja as orientações:

  • 0 a 2 anos: evitar o uso de telas, com exceção de videochamadas com amigos e familiares, sempre com supervisão;
  • 2 a 5 anos: até 1 hora por dia, com supervisão e, sempre que possível, com interação;
  • 6 a 10 anos: limite de 1 a 2 horas por dia, com acompanhamento de um adulto;
  • 11 a 17 anos: até 2 a 3 horas por dia, evitando o uso excessivo e as “viradas de noite” com jogos ou redes sociais;
  • Todas as idades: evitar o uso de telas durante as refeições e procurar desconectar de 1 a 2 horas antes de dormir.

Outras recomendações 

O documento “Crianças, adolescentes e telas: guia sobre usos de dispositivos digitais”, do Governo Federal, traz outras recomendações pertinentes para o uso mais saudável de telas na infância. Entre elas:

  • respeite a classificação indicativa das redes sociais;
  • até os 12 anos, o ideal é que a criança não tenha um smartphone próprio. Quanto mais tarde ganhar um, melhor;
  • entre 12 e 17 anos, o uso de redes sociais e aplicativos deve ser acompanhado por pais ou educadores;
  • crianças e adolescentes com deficiência devem ser incentivados a usar dispositivos digitais como ferramenta de acessibilidade, sempre com acompanhamento e orientação;
  • redes sociais não foram feitas para crianças e podem incentivar um uso excessivo ou inadequado;
  • evite que a criança use telas sozinha no quarto. Prefira ambientes comuns da casa, onde o uso pode ser mais saudável e supervisionado.

Como o uso de telas afeta as crianças?

O uso de telas na infância tem sido cada vez mais discutido por especialistas em saúde e desenvolvimento infantil. Embora ainda seja um tema relativamente recente, já existem evidências mostrando que o uso excessivo pode trazer prejuízos ao aprendizado, ao sono, ao comportamento e ao bem-estar emocional.

Desenvolvimento cognitivo

Nos primeiros anos, o cérebro das crianças cresce rapidamente e aprende principalmente por meio de interações com as pessoas e o ambiente. O uso excessivo de telas pode interferir nesse processo natural.

Um estudo brasileiro sobre tempo de tela e desenvolvimento infantil, realizado com mais de 3 mil crianças de 0 a 5 anos, mostrou que 69% estavam expostas a mais tempo de tela do que o recomendado pela OMS. 

Quanto maior a exposição, piores foram os resultados relacionados à comunicação, à resolução de problemas e às habilidades sociais, áreas fundamentais para o desenvolvimento cognitivo.

Desenvolvimento da motricidade fina

O uso sem limites de telas na infância pode atrapalhar também o desenvolvimento da motricidade fina. Esse tipo de habilidade envolve movimentos pequenos e coordenados, como segurar um lápis, manusear objetos, abotoar roupas ou usar talheres, tarefas fundamentais para a autonomia da criança e para a aprendizagem, principalmente na fase de alfabetização.

Um estudo com crianças em idade pré-escolar mostrou que quanto maior o tempo de uso de telas, pior o desempenho das crianças nas tarefas que exigem a coordenação motora fina ao longo do tempo. 

Outro achado relevante foi que esse impacto negativo foi mais forte no uso de mídias digitais recentes, como smartphones e tablets, em comparação com a televisão. Isso pode estar relacionado ao tipo de interação mais passiva e repetitiva que esses dispositivos promovem, além de reduzirem as oportunidades de movimentos variados que estimulam o desenvolvimento motor.

Desenvolvimento da linguagem

A linguagem é um dos pilares do desenvolvimento cognitivo infantil. Ela vai além da comunicação, sendo essencial para o pensamento, a resolução de problemas e a aprendizagem. Nesse sentido, foi observado que o uso indiscriminado de telas também pode interferir em aspectos como a aquisição da fala, a ampliação do vocabulário e a interação verbal.

Uma metanálise sobre o uso de telas e habilidades de linguagem infantil, realizado com mais de 18 mil crianças, mostrou que mais tempo de tela está associado a um desempenho linguístico menor. Televisão ligada ao fundo também foi um fator prejudicial identificado. 

Exposição precoce e seus impactos

Ainda, a exposição às telas merece atenção sobretudo nos primeiros anos de vida quando se analisa o desenvolvimento da linguagem. Uma pesquisa feita no Japão indicou que crianças expostas a maior tempo de tela aos 12 meses tiveram maior risco de dificuldades linguísticas aos 2 e 4 anos.

O impacto também se estende a outras áreas, como motricidade fina, habilidades sociais e resolução de problemas, mas a linguagem foi a mais afetada, tanto no curto quanto no médio prazo.

Comportamento e atenção

Embora as telas pareçam captar a atenção das crianças, o uso prolongado pode gerar o efeito contrário. Um estudo canadense com crianças de 3 a 5 anos mostrou que mais de 2 horas diárias de tela (incluindo jogos e uso de dispositivos móveis) estão associadas a maiores dificuldades de atenção e comportamentos semelhantes ao Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

Outra informação interessante é a forma como a exposição a telas afeta as crianças já diagnosticadas com TDAH. Pesquisadores avaliaram 56 crianças entre 2,5 e 6 anos de idade com o transtorno e descobriram que 80,4% delas usavam telas por mais tempo do que o recomendado (uma média de 140 minutos por dia), sendo a televisão e o celular os dispositivos mais utilizados.

O mesmo estudo também observou que quanto maior a gravidade do TDAH, maior também era o tempo de tela, e que o estresse dos pais aumentava conforme a criança passava mais tempo diante delas. 

Tempo de sono

Com o uso de telas cada vez mais presente na rotina infantil, o sono dos bebês e crianças tem sido impactado tanto em quantidade quanto em qualidade. Na China, um estudo apontou que mais da metade das crianças pequenas analisadas ultrapassava o tempo de tela recomendado pela OMS, e que quanto maior a exposição, menor era a duração do sono noturno e total.

Esse impacto é ainda mais evidente entre os menores. Uma pesquisa em Singapura com bebês de até 2 anos mostrou que o aumento do tempo de tela está ligado à redução significativa do sono, especialmente nos menores de 6 meses, chegando a uma perda de aproximadamente 17 minutos de sono para cada hora extra diante da TV.

Vale lembrar que a luz azul emitida pelas telas pode atrapalhar a produção de melatonina, o hormônio que sinaliza ao corpo que é hora de dormir.

Sedentarismo e menos tempo de atividade física

Você sabia que o tempo excessivo de tela nos primeiros anos de vida também pode contribuir para um estilo de vida menos ativo nos anos seguintes? 

Um estudo acompanhou crianças que usavam telas aos 2 e 3 anos. Aos cinco anos e meio, as que estavam expostas a mais de três horas por dia de telas apresentaram mais tempo em comportamento sedentário e menos atividade física, tanto leve quanto moderada e vigorosa.

Diminuir o tempo de tela na primeira infância pode ser uma estratégia importante para promover hábitos mais ativos e saudáveis ao longo do crescimento.

Excesso de peso

Quanto mais tempo em frente às telas, menos movimento, menos sono e mais riscos à saúde. Entre as possíveis consequências, também está o excesso de peso.

Outro estudo, também realizado em Singapura, revelou que maior tempo de tela aos 2 e 3 anos, especialmente em dispositivos móveis, está associado a mais gordura abdominal subcutânea aos 4 e 5 anos, principalmente em meninos e crianças da etnia malaia. 

Os resultados apontam para possíveis riscos a longo prazo, principalmente devido ao sedentarismo e à obesidade. Entre eles os cardiometabólicos, um conjunto de fatores e condições que aumentam a probabilidade de desenvolvimento de doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2, reforçando a importância de limitar o uso de telas na primeira infância.

Como criar uma relação saudável com as telas na infância?

O segredo está no equilíbrio e no envolvimento dos adultos. Quando usadas com moderação, propósito e supervisão, as telas podem até contribuir para o desenvolvimento das crianças. 

Pesquisas mostram que o uso controlado e interativo, com conteúdos educativos e a presença ativa de um adulto, pode estimular a linguagem, o vocabulário, a cognição e até o pensamento criativo. Jogos e programas de qualidade, mediados por pais ou cuidadores, podem fazer a diferença e transformar o tempo de tela em aprendizado.

Abaixo, você encontra algumas orientações para cultivar uma relação mais consciente e positiva com os dispositivos digitais.

Estabeleça limites de tempo e horário de uso

Cada família tem sua dinâmica e as regras devem respeitar essa realidade. Vale definir horários para o uso de telas no dia a dia e também prever momentos de “tela emergencial”, para quando os pais precisam se concentrar em algo importante. Ter limites claros ajuda a criança a entender que o tempo de tela tem começo, meio e fim.

Priorize conteúdos de qualidade

Nem todo conteúdo é igual. Dê preferência a vídeos educativos, com histórias completas (início, meio e fim), menos estímulos visuais e que ensinem algo de forma lúdica. Evite vídeos curtos, com cores vibrantes e cortes de cenas rápidos, acelerados ou com excesso de informações. Os pais podem (e devem) fazer essa curadoria com carinho, escolhendo materiais que estejam alinhados com os valores da família.

Acompanhe a criança

Assistir junto, conversar sobre o que está sendo visto, fazer perguntas e comentar as cenas torna o momento mais rico e significativo. A presença do adulto transforma a tela em uma oportunidade de troca e aprendizado, além de ajudar a criança a entender melhor o que está consumindo.

Evitar uso de telas durante refeições ou antes de dormir

As telas desviam a atenção do momento presente, seja na hora de comer, brincar ou relaxar antes de dormir. Esse hábito pode afetar o comportamento, o sono e até o vínculo familiar. Aproveite essas ocasiões para conversas, rituais tranquilos e conexão.

Criar rotinas com momentos off-line

Reserve parte do dia para atividades longe das telas. Vale tudo que envolva o corpo, os sentidos e a imaginação: brincadeiras, leituras, músicas, artes, jogos de tabuleiro e, claro, contato com a natureza. Essas experiências alimentam o desenvolvimento infantil de forma plena e fortalecem a conexão.

O papel dos adultos: o exemplo

Crianças aprendem muito mais pelo que veem do que pelo que ouvem e com o uso de telas não é diferente. Um dos principais fatores que contribuem para o uso precoce e excessivo de dispositivos digitais na infância é o comportamento dos próprios adultos. Pais, mães e cuidadores são referência e modelo, por isso vale a pena refletir sobre os próprios hábitos.

Evitar o uso constante do celular, especialmente durante momentos de atenção compartilhada, como nas refeições, nas brincadeiras ou ao conversar com a criança, é um bom começo. Olhar nos olhos, estar presente de verdade, fortalece o vínculo e mostra, na prática, que o que está ao redor importa mais do que o que está na tela.

Criar uma “higiene digital” em família, com limites claros para todos, ajuda a estabelecer uma relação mais equilibrada com a tecnologia e dá à criança a base para fazer escolhas mais saudáveis no futuro.

Definir regras pode ser uma estratégia

Um estudo com mais de mil famílias em Taiwan mostrou que pais que estabelecem regras e têm menor tempo de tela ajudam a reduzir o uso entre os filhos, o que, no estudo, se traduziu em menor risco de sobrepeso infantil. Por isso, estabelecer limites claros e dar o exemplo pode ser uma boa estratégia.

Como lidar com os pequenos quando chega a hora de desligar a tela?

Entre 1 e 5 anos é comum que as crianças apresentem explosões emocionais quando chega a hora de encerrar alguma atividade, especialmente se ela estiver entretida. Com as telas, esses momentos também podem acontecer. Aqui estão algumas dicas que podem ajudar a tornar essa transição mais amigável.

  • Avise com antecedência: diga que faltam “5 minutinhos” antes de desligar. Isso ajuda a criança a se preparar para o fim da atividade.
  • Faça combinados: escolham um último vídeo para verem juntos e depois peça ajuda para desligar a televisão.
  • Use timers ou músicas de transição: crie um ritual que sinalize o encerramento, como uma música específica ou um alarme amigável.
  • Ofereça um “plano B” divertido: proponha algo atrativo logo após, como brincar com massinha, desenhos ou um lanchinho especial.
  • Mantenha o limite com empatia: seja firme na decisão, mas acolha os sentimentos da criança. Dizer algo como “Eu sei que estava divertido, mas agora é hora de parar”, pode ajudar.

E se o uso de telas já virou uma rotina?

Quando o uso de telas na infância começa a impactar o comportamento, a saúde ou a vida social da criança, é hora de acender o sinal de alerta. Perceba se há alguns comportamentos que merecem atenção como:

  • nervosismo excessivo ao usar ou ao desligar o dispositivo;
  • mudanças no sono;
  • alterações no apetite, recusas alimentares frequentes, só come se estiver vendo vídeos ou se distrai demais nas refeições;
  • mudanças bruscas no peso ou no crescimento;
  • preferência constante por telas, mesmo em situações atrativas como brincar no parquinho;
  • falta de interesse por outras atividades (como massinha, livros, jogos);
  • dificuldade de interação social, atraso na fala e pouca troca de olhares;
  • sedentarismo: evita correr, pular, se movimentar.

O que fazer?

Se você identificar algum sinal de alerta, fique tranquila. Mudanças são possíveis e, começando aos poucos, com presença, paciência e limites claros, dá para reconstruir uma rotina mais saudável. Alguns caminhos nesse sentido são:

  • fazer mudanças graduais: reduza o tempo de tela pouco a pouco e ofereça outras atividades envolventes;
  • trocar os dispositivos aos poucos: do celular para a televisão e do uso sozinho para o compartilhado;
  • evitar usar telas como “recompensa” ou castigo:  isso aumenta o apego emocional;
  • se necessário, buscar apoio de profissionais como pediatras e psicólogos infantis.

Existem alternativas para o uso de telas?

As telas costumam oferecer um entretenimento mais passivo, por isso, substituí-las exige criatividade e envolvimento. Para que a criança se interesse por outras atividades, pode ser necessário brincar junto, convidar outras crianças ou simplesmente lembrá-la, na prática, de como brincar pode ser divertido. Por isso, vale tentar:

  • Brincadeiras livres: montar blocos, brincar de casinha ou usar fantoches estimula a criatividade e o faz de conta;
  • Leitura de livros: contar histórias ou explorar livros ilustrados cria vínculo e enriquece o vocabulário;
  • Atividades artísticas: desenhar, pintar ou colar são formas de expressão e ajudam no desenvolvimento motor;
  • Música e dança: cantar, dançar ou tocar instrumentos simples diverte e estimula a coordenação;
  • Contato com a natureza: brincar ao ar livre, mexer na terra ou observar insetos ativa os sentidos e acalma;
  • Jogos de mesa: jogos de memória, dominó ou quebra-cabeças desenvolvem o raciocínio e a atenção;
  • Movimento e corpo: correr, pular ou montar circuitos com almofadas gasta energia e fortalece o corpo;
  • Cozinhar juntos: misturar ingredientes e participar de receitas simples ensina e diverte ao mesmo tempo;
  • Tarefas com os adultos: ajudar a arrumar, regar plantas ou guardar brinquedos cria autonomia e vínculo;
  • Conversas e escuta: conversar, fazer perguntas e ouvir com atenção fortalece a conexão e a autoestima.

Prefira telas maiores

Sempre que possível, prefira dispositivos maiores, como a televisão. Celulares e tablets, por serem portáteis e de uso individual, costumam exigir maior proximidade visual e favorecem posturas inadequadas. Além disso, facilitam o uso prolongado e sem supervisão, o que pode ser intensificado por conteúdos e plataformas com design feito para prender a atenção, como vídeos em sequência e recomendações automáticas.

Já a televisão permite que o conteúdo seja assistido por mais de uma pessoa ao mesmo tempo, o que favorece a mediação adulta, o diálogo e a interação em família. Além disso, por não ser portátil, é mais fácil controlar o tempo e o contexto de uso.

Jogos que estimulam o movimento

Nem toda atividade com tela precisa ser passiva. Existem jogos e vídeos interativos que incentivam as crianças a dançar, pular, alongar e se movimentar enquanto se divertem.

Jogos que usam sensores de movimento ou câmeras capturam os gestos da criança e transformam a brincadeira em uma experiência ativa, estimulando o corpo e a coordenação motora. 

Da mesma forma, vídeos educativos e recreativos com exercícios, danças guiadas ou práticas de yoga para crianças são ótimas opções para manter o corpo em movimento, mesmo dentro de casa.

Permita que a criança vivencie o tédio

Em tempos de telas sempre à mão, o tédio virou quase um vilão. Mas, na verdade, ele pode ser um grande aliado no desenvolvimento infantil. Quando uma criança se vê sem estímulos prontos, como um celular ou um vídeo, ela aciona algo poderoso: a criatividade.

É no tédio que surgem brincadeiras inventadas, histórias criadas do nada, cabanas feitas com lençóis e jogos que só existem no mundo da imaginação. A criança brinca porque sabe brincar. Não precisa que ninguém ensine. Basta ter espaço e tempo.

Permitir que a criança fique entediada é confiar na sua capacidade de criar, explorar, se movimentar e se expressar. E mais: é dar a ela a chance de desenvolver autonomia, curiosidade e repertório.

Pode dar trabalho no começo, claro. Mas resistir à tentação de oferecer uma tela imediatamente é um presente a longo prazo. Afinal, nem todo tempo precisa ser preenchido e o vazio criativo pode ser o ponto de partida para as descobertas mais incríveis.

Equilíbrio, vínculo e rotina são as chaves

Na maternidade real e rotina da maioria das famílias, especialmente com filhos pequenos, as telas muitas vezes se tornam um recurso necessário. E tudo bem. Elas não precisam ser tratadas como inimigas. O segredo está no uso consciente, com afeto, presença e equilíbrio.

Vale sempre observar a qualidade do conteúdo, o tempo de exposição e, principalmente, manter a conexão com a criança. Mais importante do que proibir é estar junto, brincar, conversar e acolher. Com esses pequenos ajustes, é possível usar a tecnologia a favor da infância, respeitando o tempo de ser criança com imaginação, movimento, contato e vínculos que se constroem todos os dias.

Quer entender melhor o que realmente importa nos primeiros anos de vida? Veja nosso conteúdo especial sobre a primeira infância e como estimular o desenvolvimento de forma leve e afetuosa.

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